No escrever e apagar das palavras
resta pouco daquilo que me traduz.
Mas me reconheço no reflexo da vidraça
vendo os momentos desfilando lá fora,
ou nessas coisas que acrescentam sentido à vida,
fugazes também,
nas angústias dos rostos que passam,
outras histórias que o mundo traz,
no ritmo estranho de todas as horas.
Em todos os lugares, as trevas
a tristeza dos que são manobrados,
como se não houvesse futuro
ou tempo para discutir.
Sempre jogados, e ocupados
no básico essencial para sobreviver
só depois vem a escolha entre a revolta
e a angústia.
A batalha só existe
quando se tem consciência daquela força
que permite lutar.
Falo da angústia enorme
de não se sentir capaz de conquistar,
e depender de algo que venha salvar
ou migrar para o seguro,
buscando a coragem gigantesca
de apenas fugir...
21 de setembro de 2015
12 de setembro de 2015
Verso e Reverso
Nos versos, meu reverso.
Para quem me lê,
este sorriso pleno
e o brilho nos olhos.
Para quem me sente,
e abraça minha alma,
o verso do meu reverso.
Esta é a minha missão:
mostrar a poesia mesmo
no desencanto dos dias...18 de julho de 2015
O Dono do Bosque
Bem ao
norte, longe da cidade, existia um bosque. Com árvores frondosas e relva verde,
sua beleza exuberante se destacava naquela paisagem, já marcada pelo homem e
seus danos à natureza.
Em seu interior havia uma única
casa, habitada por aquele a quem chamavam "Dono do Bosque".
Pouco se sabia sobre aquele
solitário morador. Contavam que nascera ali mesmo, na casa de madeira
construída pelos pais. Meses antes do nascimento, seu pai escolhera uma das
árvores, a derrubara, e fizera, com as próprias mãos, um pequeno berço. Depois
de pronto, o trouxera para dentro de casa para que a esposa o preparasse para o
filho que esperavam. "O berço é o primeiro acolhimento após o ventre da
mãe", dissera ele, orgulhoso pelo trabalho.
O menino cresceu sem outros
amigos, e sem sair dos limites das grandes árvores.
Na adolescência perdeu a única
família que tinha conhecido: primeiro o pai, atingido pela queda de uma das
árvores durante uma ventania, e, poucos meses depois, a mãe adoeceu gravemente
e também veio a falecer.
Ambos foram enterrados por ele,
no pequeno jardim que a mãe havia
amorosamente plantado e cuidado a vida inteira.
Desde então, vivia com recursos do
próprio bosque e, mesmo sozinho, desenvolveu habilidades e conhecimentos.
Acompanhava a troca das estações pelas mudanças das folhas ou pelo vento que
soprava, e percebia o ciclo da vida pelos próprios animais que observava:
filhotes que cresciam, fêmeas que reproduziam, magníficos pássaros que fugiam
sem que ele pudesse evitar.
Nunca buscou outras companhias, e
na segurança do seu lugar conversava com os pássaros e outros animais. Diziam
que costumava abraçar as árvores, ficando unido ao troco por longos minutos, em conversas e preces que só ele compreendia.
Conhecia cada trilha, cada
clareira, e percorrera toda a extensão do riacho, com os pés descalços na água
fria e límpida.
Guardava
na memória todas as tempestades e ameaças que o bosque sofrera, como aquele
grande incêndio alguns anos antes, apagado com a chegada milagrosa de uma chuva
que durou três dias.
No entanto, diferente das belas
árvores, que renovavam as folhas a cada estação, a natureza não poupou o dono
do bosque das agruras de envelhecer.
A cada inverno ele foi se sentindo mais fraco e doente, e já não
percorria as trilhas entre as árvores. Também não conseguia se deitar, como
antes, sobre as folhas no chão, nos dias de Outono. E quando chegava a
primavera, já não tinha forças para chegar ao outro lado do bosque, para ver os
ninhos dos pássaros ou as flores daquele ano.
Acostumou-se então a ficar à
sombra de um grande carvalho, bem próximo ao riacho, de onde podia observar a
entrada do bosque. Não que esperasse alguma visita, mas por sentir necessidade
de estar entre todas aquelas árvores.
Tinha arrastado uma velha cadeira
de braços largos, e nela se sentava por horas, com os pés tocando a terra fria.
Ao seu lado, sobre uma pedra, deixava sempre o livro predileto, já gasto de
tantas releituras.
Foi então, muito tempo depois, que
em um dos mais quentes verões de que se teve notícia, que algumas
pessoas resolveram se aventurar pelo bosque, à procura de um lugar mais
agradável que as ruas quentes da cidade.
Se espalharam pelas trilhas,
falando alto e espantando pássaros e pequenos animais.
Atravessaram o riacho e viram uma pequena casa, já gasta pelo tempo, e com aparência de abandono.
Atravessaram o riacho e viram uma pequena casa, já gasta pelo tempo, e com aparência de abandono.
Curiosos, caminharam até um par
de árvores que se destacavam das outras. Um grande e velho carvalho, que
sombreava a maior parte do terreno, e ao seu lado, uma outra um pouco menor, de
madeira clara e galhos curtos, cobertos de folhas e pequenas flores.
A composição, do tronco e galhos,
provocava uma estranha imagem, que surpreendeu a todos. Observando melhor,
compararam o que viam a figura de um homem sentado, que aproveitava a sombra do
carvalho para uma leitura ao fim da tarde.
O que eles nunca souberam, foi
que o dono do bosque se tornara definitivamente parte dele. Os pés tinham
criado raízes profundas e fortalecido o corpo, que se tornou cerne, e
aqueles braços que antes abraçavam
árvores agora eram galhos com folhas e flores, que abrigavam os novos ninhos de
outros pequenos passarinhos que em breve povoariam o bosque.
23 de junho de 2015
Colorindo o Mundo
Um dia, o
mundo amanheceu todo cinza e triste. As árvores, as casas, as ruas e os carros, todos ficaram da cor cinza. Parecia
que o sr. Vento tinha soprado pó de cimento sobre todas as coisas.
Quando a
menina acordou, olhou pela janela e ficou assustada por ver o mundo tão feio.
Então
perguntou para o sol o que devia fazer, mas o sol era apenas uma luzinha amarela,
muito fraquinha no céu cinzento, e respondeu-lhe com uma voz baixinha, vinda lá
de cima dizendo:" Ah, menina, você tem pintar o mundo de novo!".
Ela
apressou-se para lavar os dentinhos, o rosto e, ainda antes de comer e ir para
a escola, quis deixar o mundo bonito outra vez.
Buscou dentro
da gaveta da sua mesa do quarto a caixa de lápis de cor, foi à janela para ver
bem como era o mundo, voltou para a mesa e desenhou tudo numa folha de papel.
Depois começou a colorir o mundo.
Fez a casa da
frente azul outra vez, e a sua boneca voltou a ter cabelos vermelhos como tinha
antes do mundo mudar de cor. Também pintou bem branquinho, como um floco de
neve, um cachorrinho viralata que sempre passava muito sujo, para parecer que
tinha tomado banho. Assim, talvez mamãe a deixasse trazê-lo para o quintal e
brincar com ele.
Depois foi
pintando as árvores, os carros de todas as cores, as flores dos jardins, uma de
cada cor, o céu de azul muito bonito, e o sol de amarelo muito forte e
brilhante, como era antes.
E tudo o que a
menina desenhava no papel, ia mudando lá fora na rua, deixando de ser cinza e
ficando colorido como no desenho. Mas logo a menina ficou muito cansada, porque
o mundo era muito grande e tinha muitas coisas para pintar. Ela tinha de ir
para a escola, já estava atrasada e não podia pintar mais.
E ela chorou,
chorou, até aparecer uma borboleta mágica, que voava para cá e para lá, e que
tinha todas as cores do mundo reunidas nas suas asas.
"Voa
comigo, que eu te ajudo a pintar!", disse a borboletinha.
"Mas eu
não posso voar", lamentou-se a menina.
Foi então que
a borboleta teve uma idéia: bateu as asas rapidinho, para chamar todos os
animais do jardim. Logo chegaram o esquilo serelepe, a abelha zum-zum, os passarinhos
piu-piu e as lagartixas corre-corre. O último a chegar foi o cágado molenga,
muito dorminhoco, que de vez em quando parava, encolhia as patinhas para dentro
da carapaça, escondia a cabeça e tirava um cochilo.
Foi uma
confusão na janela, porque todos queriam entrar no quarto, e falavam todos ao
mesmo tempo. A menina, coitadinha, não sabia o que fazer.
Como ninguém
escutava, ela subiu em cima do banco de pedra e começou a gritar: "atenção,
atenção", e quando todos fizeram silêncio, a dona Coruja sabe-tudo, que era
a mais sábia, lá do alto da árvore, explicou como fariam para ajudar a menina a
pintar o mundo. Distribuiu tarefas a todos e explicou que, se todos fizessem a
sua parte, o mundo ficaria bonito outra vez.
"Você,
abelha, chama todas as suas irmãs para irem pintar todas as flores, porque vocês
já voam sempre, de flor em flor, vai ser muito fácil, não é ? E vocês conhecem todas
as cidades e são muito rápidas. Para você lagartixa, vou pedir que pinte os muros,
as paredes das casas e as ruas."
O esquilo logo
se adiantou: " e eu? e eu?" . "Você, meu amiguinho, vai pintar
os troncos das árvores e todos os lugares onde conseguir entrar, porque você é
muito esperto!".
Sem nem
precisar mandar, os passarinhos já foram pegando os lápis com os biquinhos e
bateram as asinhas voando para colorir as folhas das árvores e as nuvens, lá no
alto, onde só mesmo os passarinhos chegam.
A menina
correu para a escola, aflita porque já estava atrasada e nesse dia havia coisas
muito bonitas para aprender.
Mas os
animaizinhos continuaram a colorir o mundo.
E assim foi o
dia inteiro. Pintaram, pintaram, até tudo ficar colorido de novo.
E quando o sol
já estava se recolhendo, amarelinho que era uma beleza de ver, a menina chegou
da escola e deitou-se no gramado verdinho, feliz por tudo estar tão bonito.
Olhava o céu, as nuvens branquinhas, as flores em redor, quando uma vozinha
baixinha e arrastada a chamou:
“Ei cuidado
comigo!”
A menina levou
um susto e procurou no meio da grama quem estava gritando. Era a joaninha
pequenina, tão vermelhinha de bolinhas pretinhas, debaixo da folhinha de grama.
“Você?
Desculpa, não estava te vendo, amiguinha. Suba aqui no meu braço para eu ver
como são lindas as suas cores.”
A joaninha
veio depressa e subiu, e fez questão de contar: “quem me pintou foi cágado
molenga, com um pincel bem pequeninho”
“você ficou
bonita!”
Aos poucos os
animais foram chegando e sentando perto da menina e da joaninha, para
descansar.
O mundo já
estava todo colorido de novo.
O jardim ficou
cheio de flores, com som de abelhas e passarinhos, e os esquilos pulando por
todo lado.
Só quem ainda
trabalhava era a borboletinha.
28 de abril de 2015
Baião
Meu pai gostava de dançar o baião.
Assim que a música começava, sempre Luiz Gonzaga, ele
se levantava e me estendia a mão, em convite.
Embora eu já soubesse de cor todas as instruções, ouvia com alegria
"por farta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão"...
A saudade não tem ritmo.Assim que a música começava, sempre Luiz Gonzaga, ele
se levantava e me estendia a mão, em convite.
Embora eu já soubesse de cor todas as instruções, ouvia com alegria
enquanto dançava: "arrastando os pés, vamos lá".
Ele cantava baixinho, acompanhando o cantor, e muitas vezes eu fui
a testemunha daqueles olhos marejados..."por farta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão"...
Penso que ele está lá, cantando enquanto me vê:
"...então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração..."
11 de abril de 2015
A Senhorinha e as colchas de retalhos
Todos na cidade
conheceram a história daquela senhorinha.
Contava-se que nascera
em família abastada mas depois de recusar um casamento arranjado entre
famílias, tinha preferido viver de forma mais simples, na pequena casa próxima
ao rio.
Depois disso, fora
professora por muitos anos, e pelas suas mãos de mestra tinha passado a da
maioria das crianças da pequena cidade, e com isso acabara se tornando uma
espécie de "conselheira", que recebia a todos sempre com um sorriso
amável e acolhedor.
Quem passava pela
estreita rua de pedras, fosse em dias de chuva ou de sol, podia vê-la sentada
na velha cadeira de balanço da varanda, costurando colchas de retalhos com
grande habilidade.
Algumas vezes um
antigo aluno, já um adulto, vinha cumprimenta-la. Chegava e sentava-se perto
dela, no degrau de entrada, e começava a falar da própria vida. Ela ia
assentindo com a cabeça, murmurando para que ele "seguisse o coração"
ou, dependendo do assunto, que "deixasse nas mãos de Deus".
Muitas moças
vinham pedir conselhos para corações partidos e desilusões de amor. Ela ouvia
quieta, olhos baixos na costura no colo, até que tudo fosse revelado e as
lágrimas esgotadas. Então se levantava, buscava xícaras de chá bem doce, e
iniciava uma conversa sobre o poder de cuidarmos de nossas próprias feridas,
até se tornarem pequenas cicatrizes e serem esquecidas.
Outras vezes, mães
traziam seus filhos pequenos e os colocavam em seu colo. Pediam uma
"benção" de saúde, ou contavam proezas que a faziam rir espantada, e
os abraçar como se fossem netos queridos, ou filhos que nunca tivera.
Embora muito
querida, poucos visitantes chegaram a observar melhor os delicados trabalhos de
costura feitos por ela. Por isso não viam a exatidão com que ela cortava cada
retalho, depois de uma escolha entre os tecidos separados e guardados segundo
uma lógica só dela, e que ia muito além da mera seleção de cores e padrões.
Assim, nunca
souberam que cada colcha de retalhos contava uma parte de sua história, e que
aquela tinha sido a forma que escolhera para retratar seu passado, e as emoções
vividas ao longo dos anos. Ela guardava suas memórias costuradas e bem
dobradas, transformadas em uma forma especial de livros, que só ela
interpretava.
Em uma das primeiras, feita quando ainda era menina, via-se uma mistura de tecidos alegres: pequenos animaizinhos, flores e frutas nas estampas que escolhera junto com mãe, enquanto aprendia a costurar. Dessa época tinha outras em diferentes tamanhos, todas retratando algo de particular através dos desenhos e cores.
Em uma outra, tons
cinzas e desenhos apagados registraram o ano em que perdeu os pais, e a
lembravam dos longos meses em vigília ao lado de camas de hospital, em que só a
costura lhe deu esperanças.
Uma das
prediletas, guardada com carinho em um armário, fora feita com retalhos de
tecidos presenteados pelas crianças da escola, e que era uma mistura de
desenhos de flores, de todas as cores e formatos.
Junto dela, uma
outra inacabada, pois a alegria com que começara, vista na escolha por estampas
com corações e rosas, se desfizera com a partida de grande amor.
Ela nunca tinha
pensado em se desfazer das colchas, e sempre que terminava uma, a dobrava e
guardava com carinho, como a um livro escrito com muito esforço e sentimento, e
que ninguém chegaria a ler.
Essa doce senhora
ainda vive, e embora mais lentamente, continua a costurar seus retalhos e dar
os seus conselhos.
Velha aluna, ainda
ontem a visitei e pedi que me abençoasse. Senti nas suas mãos trêmulas uma fé
inabalável, e as beijei em sincero agradecimento ao me despedir.
Quando saía, toquei
a colcha quase terminada em seu colo, e observei que era de retalhos com
desenhos de nuvens brancas, em um céu azul límpido e claro.
(foto Poetas Trabajando)
(foto Poetas Trabajando)
5 de abril de 2015
Renovada
Tira os sapatos e pisa a areia morna.
Solta os cabelos e abre os braços,
nesta dança com vento e sol.
Corre destemida para o mar,
E mergulha em azul que também é céu.
No abraço de espuma,
ou no beijo respingado de sal,
um batismo de mulher renascida,
que tem na pele o gosto de liberdade
tão grande como o próprio sol,
tão constante como o movimento das ondas.
Neste caminho que recomeça no mar...
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