18 de julho de 2015

O Dono do Bosque

Bem ao norte, longe da cidade, existia um bosque. Com árvores frondosas e relva verde, sua beleza exuberante se destacava naquela paisagem, já marcada pelo homem e seus danos à natureza.
Em seu interior havia uma única casa, habitada por aquele a quem chamavam "Dono do Bosque".
Pouco se sabia sobre aquele solitário morador. Contavam que nascera ali mesmo, na casa de madeira construída pelos pais. Meses antes do nascimento, seu pai escolhera uma das árvores, a derrubara, e fizera, com as próprias mãos, um pequeno berço. Depois de pronto, o trouxera para dentro de casa para que a esposa o preparasse para o filho que esperavam. "O berço é o primeiro acolhimento após o ventre da mãe", dissera ele, orgulhoso pelo trabalho.
O menino cresceu sem outros amigos, e sem sair dos limites das grandes árvores.
Na adolescência perdeu a única família que tinha conhecido: primeiro o pai, atingido pela queda de uma das árvores durante uma ventania, e, poucos meses depois, a mãe adoeceu gravemente e também veio a falecer.
Ambos foram enterrados por ele, no pequeno jardim que a mãe havia amorosamente plantado e cuidado a vida inteira.
Desde então, vivia com recursos do próprio bosque e, mesmo sozinho, desenvolveu habilidades e conhecimentos. Acompanhava a troca das estações pelas mudanças das folhas ou pelo vento que soprava, e percebia o ciclo da vida pelos próprios animais que observava: filhotes que cresciam, fêmeas que reproduziam, magníficos pássaros que fugiam sem que ele pudesse evitar.
Nunca buscou outras companhias, e na segurança do seu lugar conversava com os pássaros e outros animais. Diziam que costumava abraçar as árvores, ficando unido ao troco por longos minutos, em conversas e preces que só ele compreendia.
Conhecia cada trilha, cada clareira, e percorrera toda a extensão do riacho, com os pés descalços na água fria e límpida.
Guardava na memória todas as tempestades e ameaças que o bosque sofrera, como aquele grande incêndio alguns anos antes, apagado com a chegada milagrosa de uma chuva que durou três dias.
No entanto, diferente das belas árvores, que renovavam as folhas a cada estação, a natureza não poupou o dono do bosque das agruras de envelhecer.
A cada inverno ele foi se sentindo mais fraco e doente, e já não percorria as trilhas entre as árvores. Também não conseguia se deitar, como antes, sobre as folhas no chão, nos dias de Outono. E quando chegava a primavera, já não tinha forças para chegar ao outro lado do bosque, para ver os ninhos dos pássaros ou as flores daquele ano.
Acostumou-se então a ficar à sombra de um grande carvalho, bem próximo ao riacho, de onde podia observar a entrada do bosque. Não que esperasse alguma visita, mas por sentir necessidade de estar entre todas aquelas árvores.
Tinha arrastado uma velha cadeira de braços largos, e nela se sentava por horas, com os pés tocando a terra fria. Ao seu lado, sobre uma pedra, deixava sempre o livro predileto, já gasto de tantas releituras.
Foi então, muito tempo depois, que em um dos mais quentes verões de que se teve notícia, que algumas pessoas resolveram se aventurar pelo bosque, à procura de um lugar mais agradável que as ruas quentes da cidade.
Se espalharam pelas trilhas, falando alto e espantando pássaros e pequenos animais. 
Atravessaram o riacho e viram uma pequena casa, já gasta pelo tempo, e com aparência de abandono.
Curiosos, caminharam até um par de árvores que se destacavam das outras. Um grande e velho carvalho, que sombreava a maior parte do terreno, e ao seu lado, uma outra um pouco menor, de madeira clara e galhos curtos, cobertos de folhas e pequenas flores.
A composição, do tronco e galhos, provocava uma estranha imagem, que surpreendeu a todos. Observando melhor, compararam o que viam a figura de um homem sentado, que aproveitava a sombra do carvalho para uma leitura ao fim da tarde.

O que eles nunca souberam, foi que o dono do bosque se tornara definitivamente parte dele. Os pés tinham criado raízes profundas e fortalecido o corpo, que se tornou cerne, e aqueles braços que antes abraçavam árvores agora eram galhos com folhas e flores, que abrigavam os novos ninhos de outros pequenos passarinhos que em breve povoariam o bosque.


23 de junho de 2015

Colorindo o Mundo

Um dia, o mundo amanheceu todo cinza e triste. As árvores, as casas, as ruas e os  carros, todos ficaram da cor cinza. Parecia que o sr. Vento tinha soprado pó de cimento sobre todas as coisas.

Quando a menina acordou, olhou pela janela e ficou assustada por ver o mundo tão feio.
Então perguntou para o sol o que devia fazer, mas o sol era apenas uma luzinha amarela, muito fraquinha no céu cinzento, e respondeu­-lhe com uma voz baixinha, vinda lá de cima dizendo:" Ah, menina, você tem pintar o mundo de novo!".

Ela apressou­-se para lavar os dentinhos, o rosto e, ainda antes de comer e ir para a escola, quis deixar o mundo bonito outra vez.

Buscou dentro da gaveta da sua mesa do quarto a caixa de lápis de cor, foi à janela para ver bem como era o mundo, voltou para a mesa e desenhou tudo numa folha de papel. Depois começou a colorir o mundo.

Fez a casa da frente azul outra vez, e a sua boneca voltou a ter cabelos vermelhos como tinha antes do mundo mudar de cor. Também pintou bem branquinho, como um floco de neve, um cachorrinho vira­lata que sempre passava muito sujo, para parecer que tinha tomado banho. Assim, talvez mamãe a deixasse trazê-­lo para o quintal e brincar com ele.

Depois foi pintando as árvores, os carros de todas as cores, as flores dos jardins, uma de cada cor, o céu de azul muito bonito, e o sol de amarelo muito forte e brilhante, como era antes.

E tudo o que a menina desenhava no papel, ia mudando lá fora na rua, deixando de ser cinza e ficando colorido como no desenho. Mas logo a menina ficou muito cansada, porque o mundo era muito grande e tinha muitas coisas para pintar. Ela tinha de ir para a escola, já estava atrasada e não podia pintar mais.

E ela chorou, chorou, até aparecer uma borboleta mágica, que voava para cá e para lá, e que tinha todas as cores do mundo reunidas nas suas asas.
"Voa comigo, que eu te ajudo a pintar!", disse a borboletinha.
"Mas eu não posso voar", lamentou-­se a menina.

Foi então que a borboleta teve uma idéia: bateu as asas rapidinho, para chamar todos os animais do jardim. Logo chegaram o esquilo serelepe, a abelha zum-­zum, os passarinhos piu­-piu e as lagartixas corre-­corre. O último a chegar foi o cágado molenga, muito dorminhoco, que de vez em quando parava, encolhia as patinhas para dentro da carapaça, escondia a cabeça e tirava um cochilo.

Foi uma confusão na janela, porque todos queriam entrar no quarto, e falavam todos ao mesmo tempo. A menina, coitadinha, não sabia o que fazer.

Como ninguém escutava, ela subiu em cima do banco de pedra e começou a gritar: "atenção, atenção", e quando todos fizeram silêncio, a dona Coruja sabe-­tudo, que era a mais sábia, lá do alto da árvore, explicou como fariam para ajudar a menina a pintar o mundo. Distribuiu tarefas a todos e explicou que, se todos fizessem a sua parte, o mundo ficaria bonito outra vez.

"Você, abelha, chama todas as suas irmãs para irem pintar todas as flores, porque vocês já voam sempre, de flor em flor, vai ser muito fácil, não é ? E vocês conhecem todas as cidades e são muito rápidas. Para você lagartixa, vou pedir que pinte os muros, as paredes das casas e as ruas."

O esquilo logo se adiantou: " e eu? e eu?" . "Você, meu amiguinho, vai pintar os troncos das árvores e todos os lugares onde conseguir entrar, porque você é muito esperto!".

Sem nem precisar mandar, os passarinhos já foram pegando os lápis com os biquinhos e bateram as asinhas voando para colorir as folhas das árvores e as nuvens, lá no alto, onde só mesmo os passarinhos chegam.

A menina correu para a escola, aflita porque já estava atrasada e nesse dia havia coisas muito bonitas para aprender.

Mas os animaizinhos continuaram a colorir o mundo.

E assim foi o dia inteiro. Pintaram, pintaram, até tudo ficar colorido de novo.

E quando o sol já estava se recolhendo, amarelinho que era uma beleza de ver, a menina chegou da escola e deitou-­se no gramado verdinho, feliz por tudo estar tão bonito. Olhava o céu, as nuvens branquinhas, as flores em redor, quando uma vozinha baixinha e arrastada a chamou:

“Ei cuidado comigo!”

A menina levou um susto e procurou no meio da grama quem estava gritando. Era a joaninha pequenina, tão vermelhinha de bolinhas pretinhas, debaixo da folhinha de grama.

“Você? Desculpa, não estava te vendo, amiguinha. Suba aqui no meu braço para eu ver como são lindas as suas cores.”

A joaninha veio depressa e subiu, e fez questão de contar: “quem me pintou foi cágado molenga, com um pincel bem pequeninho”

“você ficou bonita!”

Aos poucos os animais foram chegando e sentando perto da menina e da joaninha, para descansar.
O mundo já estava todo colorido de novo.

O jardim ficou cheio de flores, com som de abelhas e passarinhos, e os esquilos pulando por todo lado.

Só quem ainda trabalhava era a borboletinha. 

Pousada numa caixa de lápis, ela sacudia as asinhas e coloria cada um deles, para que depois pudessem pintar todos os desenhos que as crianças fazem.

(conto infantil que inicia uma série de histórias para crianças)
(foto Poetas Trabajando)


28 de abril de 2015

Baião

Meu pai gostava de dançar o baião.
Assim que a música começava, sempre Luiz Gonzaga, ele
se levantava e me estendia a mão, em convite.
Embora eu já soubesse de cor todas as instruções, ouvia com alegria
enquanto dançava: "arrastando os pés, vamos lá".
Ele cantava baixinho, acompanhando o cantor, e muitas vezes eu fui
a testemunha daqueles olhos marejados...
"por farta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão"...
A saudade não tem ritmo.
É impossível acompanha-la, ou se alegrar com ela.
E hoje, sem meu par, deixei de dançar o baião.
Penso que ele está lá, cantando enquanto me vê:

"...então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração..."

11 de abril de 2015

A Senhorinha e as colchas de retalhos

Todos na cidade conheceram a história daquela senhorinha.
Contava-se que nascera em família abastada mas depois de recusar um casamento arranjado entre famílias, tinha preferido viver de forma mais simples, na pequena casa próxima ao rio.

Depois disso, fora professora por muitos anos, e pelas suas mãos de mestra tinha passado a da maioria das crianças da pequena cidade, e com isso acabara se tornando uma espécie de "conselheira", que recebia a todos sempre com um sorriso amável e acolhedor.

Quem passava pela estreita rua de pedras, fosse em dias de chuva ou de sol, podia vê-la sentada na velha cadeira de balanço da varanda, costurando colchas de retalhos com grande habilidade.

Algumas vezes um antigo aluno, já um adulto, vinha cumprimenta-la. Chegava e sentava-se perto dela, no degrau de entrada, e começava a falar da própria vida. Ela ia assentindo com a cabeça, murmurando para que ele "seguisse o coração" ou, dependendo do assunto, que "deixasse nas mãos de Deus".

Muitas moças vinham pedir conselhos para corações partidos e desilusões de amor. Ela ouvia quieta, olhos baixos na costura no colo, até que tudo fosse revelado e as lágrimas esgotadas. Então se levantava, buscava xícaras de chá bem doce, e iniciava uma conversa sobre o poder de cuidarmos de nossas próprias feridas, até se tornarem pequenas cicatrizes e serem esquecidas.

Outras vezes, mães traziam seus filhos pequenos e os colocavam em seu colo. Pediam uma "benção" de saúde, ou contavam proezas que a faziam rir espantada, e os abraçar como se fossem netos queridos, ou filhos que nunca tivera.

Embora muito querida, poucos visitantes chegaram a observar melhor os delicados trabalhos de costura feitos por ela. Por isso não viam a exatidão com que ela cortava cada retalho, depois de uma escolha entre os tecidos separados e guardados segundo uma lógica só dela, e que ia muito além da mera seleção de cores e padrões.

Assim, nunca souberam que cada colcha de retalhos contava uma parte de sua história, e que aquela tinha sido a forma que escolhera para retratar seu passado, e as emoções vividas ao longo dos anos. Ela guardava suas memórias costuradas e bem dobradas, transformadas em uma forma especial de livros, que só ela interpretava.

Em uma das primeiras, feita quando ainda era menina, via-se uma mistura de tecidos alegres: pequenos animaizinhos, flores e frutas nas estampas que escolhera junto com mãe, enquanto aprendia a costurar. Dessa época tinha outras em diferentes tamanhos, todas retratando algo de particular através dos desenhos e cores.

Em uma outra, tons cinzas e desenhos apagados registraram o ano em que perdeu os pais, e a lembravam dos longos meses em vigília ao lado de camas de hospital, em que só a costura lhe deu esperanças.

Uma das prediletas, guardada com carinho em um armário, fora feita com retalhos de tecidos presenteados pelas crianças da escola, e que era uma mistura de desenhos de flores, de todas as cores e formatos.

Junto dela, uma outra inacabada, pois a alegria com que começara, vista na escolha por estampas com corações e rosas, se desfizera com a partida de grande amor.

Ela nunca tinha pensado em se desfazer das colchas, e sempre que terminava uma, a dobrava e guardava com carinho, como a um livro escrito com muito esforço e sentimento, e que ninguém chegaria a ler.

Essa doce senhora ainda vive, e embora mais lentamente, continua a costurar seus retalhos e dar os seus conselhos.
Velha aluna, ainda ontem a visitei e pedi que me abençoasse. Senti nas suas mãos trêmulas uma fé inabalável, e as beijei em sincero agradecimento ao me despedir.

Quando saía, toquei a colcha quase terminada em seu colo, e observei que era de retalhos com desenhos de nuvens brancas, em um céu azul límpido e claro.


(foto Poetas Trabajando)



5 de abril de 2015

Renovada

Tira os sapatos e pisa a areia morna.
Solta os cabelos e abre os braços,
nesta dança com vento e sol.
Corre destemida para o mar,
E mergulha em azul que também é céu.

No abraço de espuma,
ou no beijo respingado de sal,
um batismo de mulher renascida,
que tem na pele o gosto de liberdade
tão grande como o próprio sol,
tão constante como o movimento das ondas.
Neste caminho que recomeça no mar...




10 de março de 2015

Infância

Ela era ainda muito nova, quando seus pais perceberam seu temperamento audacioso e a mente inquieta.
Única menina entre quatro irmãos, surpreendia a todos quando abandonava as delicadas bonecas, presentes caros que recebera, e corria pelo quintal em barulhentas brincadeiras com os irmãos. Sem sentir medo, subia até os últimos galhos das mangueiras, e trazia consigo doces frutos para ofertar à mãe.
Outras vezes saía a perseguir calangos, para transformá­los em seres mágicos, com quem conversava por horas, antes de soltá­los no jardim.
Algumas vezes voltava para casa com cicatrizes dolorosas: sinais de quedas ou aventuras pela vizinhança. Nessas ocasiões, ouvia de cabeça baixa as infindáveis recriminações dos pais, e aceitava sem rancor o castigo imposto: dias sem sair de casa, em que ficava à janela olhando o jardim.
Mas depois de algum tempo, durante uma tarde com o pai, bastava que o envolvesse pelo pescoço e prometesse se comportar, para que ele cedesse às suas vontades, e de novo a libertasse para o sol do quintal, e inúmeras brincadeiras que aquele ambiente proporcionava.
Até que um dia, a idade de estudar chegou, e os pais decidiram que a menina de cabelos desalinhados, joelhos marcados e sujos, iria, como todas as meninas na época, para o colégio interno. Nem mesmos as lágrimas derramadas, e o pavor estampado nos doces olhos da criança, foram capazes de comover a família.
Quando partiu, deixou para trás todos os sonhos e fantasias infantis, e enfrentou com um mínimo de coragem a nova vida que lhe foi apresentada.
Trocou o quintal pelas salas de estudo, e as brincadeiras pelas orações e tarefas da escola. Aos poucos deixou de lembrar do pomar, dos pequenos animais e as corridas com os amigos. Se esqueceu das flores que colhia e prendia nos cabelos, e da fonte do jardim, onde se sentava e mergulhava os pés na água fria.
E quando, por fim, voltou, já mulher feita, andou pela casa à procura de lembranças. Visitou os quartos, abriu janelas e gavetas à procura de antigos objetos.

Ao fim do dia se sentou perto da janela, e abrindo um pequeno caderno que trouxera consigo, começou a escrever. 

Contou a história da menina que amava a liberdade e o sol no rosto, e vivia em um quintal encantado, de onde não precisava sair nunca, e onde estavam todas as alegrias que uma criança devia viver.


26 de fevereiro de 2015

Peregrinos

Vejo o peregrino, vestido de fé e anseios,
se aventurando em milenares caminhos,
na busca por si próprio.
Para ele não importa a aridez do chão,
ou a solidão dos próprios passos,
em todos os dias e noites 
de sacrifício à alma pelo corpo.
Assim como ele, o poeta se isola,
no anseio de traduzir o que sente
em palavras e versos do coração.
Da mesma forma ele se oferece à obra que escreve,
na religiosa tarefa de se tornar criador,
embora , peregrino, seja,
um caminhante à procura de luz.