25 de outubro de 2015

Neste Natal

Naquele dia, nem mesmo a decoração festiva, ou todos os preparativos para ceia de Natal com a família, conseguiram tirar a incômoda melancolia que ela sentia.
Tinha sido um ano difícil, com as perdas do pai e o marido, os problemas de saúde de um irmão, e as dificuldades financeiras pelas quais passavam. Mesmo assim, insistira na presença da família, convidando pessoalmente cada um, e recomendando que não se atrasassem.
Durante a tarde conferiu mais uma vez a grande árvore de Natal montada na sala. Era a mesma, desde que os filhos tinham nascido, e restavam poucos enfeites, depois de tantos anos.
Quando eram crianças, sentiam enorme prazer em colocar cada ornamento, e tentavam adivinhar o conteúdo dos presentes que dia a dia eram colocados sob a árvore. Agora já eram adultos, chegavam e, enquanto esperavam o jantar, se distraíam com a televisão ou se sentavam por perto dela durante alguns minutos, mas logo se afastavam desinteressados. No Natal anterior, os netos adolescentes, tão envolvidos com seus aparelhos eletrônicos, passaram boa parte da noite silenciosos e entediados.
"Espero que estejam animados hoje", pensou.
Depois de tudo preparado e arrumado, avaliou a pequena sala, conferindo o resultado.
Foi quando seus olhos pousaram na antiga caixa de madeira, na última prateleira da estante de livros. Não se lembrava de quando a tinha colocado naquele lugar, mas sabia que alguns anos tinham se passado, desde que olhara o conteúdo pela última vez.
Com cuidado, pegou o objeto e se sentou na sua poltrona predileta. Antes de abrir, passou os dedos pela pintura desbotada da tampa e a fechadura enferrujada.
Enquanto revia suas relíquias pessoais ali guardadas, deixou-se invadir pela emoção e saudade.
Em meio a antigas fotografias, pequenos brinquedos, lembranças de escola, desenhos dos filhos e cartões, encontrou o maço de cartas infantis endereçadas a Papai Noel, escritas em diferentes anos, e guardadas secretamente por ela. Foi relendo uma a uma, buscando na memória os momentos em que os filhos acordavam falantes, ansiosos para ver se os pedidos tinham sido atendidos, soltando gritinhos de alegria diante dos pacotes.
Mas foi um cartão, feito em conjunto pelos filhos, que provocou lágrimas e uma reflexão sobre o encontro daquela noite. Depois de algum tempo, consultou o relógio, deixou a caixa no sofá, e se preparou para a chegada da família.

Chegaram trazendo alguns presentes e, antes que ela fizesse qualquer comentário, perceberam seus pequenos arranjos.
Na antiga árvore, encontraram alguns dos brinquedos de criança, usados como novos enfeites. Sobre a mesinha de centro, as delicadas cartinhas, de forma que pudessem reconhece-las e manuseá-las. Os lindos desenhos, com figuras de Papai Noel e bolas coloridas, enfeitavam a parede.
Bastou um olhar, trocado entre mãe e filhos, para que a mensagem de carinho familiar e todo o amor que sentiam fosse, de repente, latente entre eles. Juntos releram tudo, contando aos filhos os sonhos de criança, cheios da magia do Natal em velhos tempos.
Ela percebeu, feliz, a diversão dos netos ao escutarem os pais descrevendo as primeiras tentativas de pedalar na bicicleta tão sonhada, ou a grande emoção ao ganhar uma boneca que dizia "mamá", algo que superava qualquer fantasia infantil, naquela época. Comentaram as artimanhas do avô, naquele Natal em que se vestira de Noel, e entrara pela janela carregando um saco de presentes para surpreender os filhos. Com ingenuidade infantil, falaram daquela visita por meses, acreditando que o velhinho visitava todas as crianças do mundo.
Ao se sentarem todos à mesa, ela pediu ao neto mais velho para ler aquele cartão que separara. Embora tímido, o jovem não resistiu ao pedido, e de boa vontade leu as palavras que revelavam uma oração, escrita pelo pai e a tia, quando eram pequenos:

Querido Menino Jesus,
Proteja a nossa família,
para que todos os anos possamos estar juntos,
unidos pelo Amor e Paz.
E que sempre nos lembremos
desta linda noite de Natal!

Depois de um breve silêncio, sorrisos foram se abrindo e um sentimento de grande afeição contagiou a todos.
"O Espírito do Natal" voltou, pensou ela.
Todos sabiam que aquele seria um Natal inesquecível...



13 de outubro de 2015

Eu-árvore

Sou árvore, em um bosque denso.

Nos meus braços-galhos tenho filhos-frutos, que dão sentido a tudo que vivi.

E sustentando meu tronco, tenho raízes-pais, que me ensinaram a enfrentar a vida de pé, mesmo durante os ventos fortes.

Durante as estações perco folhas, para depois ver nascer outras tantas, conforme são tristes os invernos, ou alegres, as primaveras.

Resisto ao tempo, mas não ao machado, e a dor que me corta é a que vem injusta e inesperada, daqueles que não conhecem a seiva que derramo, vinda da força que tenho por dentro.


21 de setembro de 2015

Refugiados

No escrever e apagar das palavras
resta pouco daquilo que me traduz.
Mas me reconheço no reflexo da vidraça
vendo os momentos desfilando lá fora,
ou nessas coisas que acrescentam sentido à vida,
fugazes também,
nas angústias dos rostos que passam,
outras histórias que o mundo traz,
no ritmo estranho de todas as horas.

Em todos os lugares, as trevas
a tristeza dos que são manobrados,
como se não houvesse futuro
ou tempo para discutir.

Sempre jogados, e ocupados
no básico essencial para sobreviver
só depois vem a escolha entre a revolta
e a angústia.

A batalha só existe
quando se tem consciência daquela força
que permite lutar.

Falo da angústia enorme
de não se sentir capaz de conquistar,
e depender de algo que venha salvar
ou migrar para o seguro,
buscando a coragem gigantesca
de apenas fugir...

12 de setembro de 2015

Verso e Reverso

Nos versos, meu reverso.
Para quem me lê,
este sorriso pleno
e o brilho nos olhos.
Para quem me sente,
e abraça minha alma,
o verso do meu reverso.
Esta é a minha missão:
mostrar a poesia mesmo
no desencanto dos dias...


18 de julho de 2015

O Dono do Bosque

Bem ao norte, longe da cidade, existia um bosque. Com árvores frondosas e relva verde, sua beleza exuberante se destacava naquela paisagem, já marcada pelo homem e seus danos à natureza.
Em seu interior havia uma única casa, habitada por aquele a quem chamavam "Dono do Bosque".
Pouco se sabia sobre aquele solitário morador. Contavam que nascera ali mesmo, na casa de madeira construída pelos pais. Meses antes do nascimento, seu pai escolhera uma das árvores, a derrubara, e fizera, com as próprias mãos, um pequeno berço. Depois de pronto, o trouxera para dentro de casa para que a esposa o preparasse para o filho que esperavam. "O berço é o primeiro acolhimento após o ventre da mãe", dissera ele, orgulhoso pelo trabalho.
O menino cresceu sem outros amigos, e sem sair dos limites das grandes árvores.
Na adolescência perdeu a única família que tinha conhecido: primeiro o pai, atingido pela queda de uma das árvores durante uma ventania, e, poucos meses depois, a mãe adoeceu gravemente e também veio a falecer.
Ambos foram enterrados por ele, no pequeno jardim que a mãe havia amorosamente plantado e cuidado a vida inteira.
Desde então, vivia com recursos do próprio bosque e, mesmo sozinho, desenvolveu habilidades e conhecimentos. Acompanhava a troca das estações pelas mudanças das folhas ou pelo vento que soprava, e percebia o ciclo da vida pelos próprios animais que observava: filhotes que cresciam, fêmeas que reproduziam, magníficos pássaros que fugiam sem que ele pudesse evitar.
Nunca buscou outras companhias, e na segurança do seu lugar conversava com os pássaros e outros animais. Diziam que costumava abraçar as árvores, ficando unido ao troco por longos minutos, em conversas e preces que só ele compreendia.
Conhecia cada trilha, cada clareira, e percorrera toda a extensão do riacho, com os pés descalços na água fria e límpida.
Guardava na memória todas as tempestades e ameaças que o bosque sofrera, como aquele grande incêndio alguns anos antes, apagado com a chegada milagrosa de uma chuva que durou três dias.
No entanto, diferente das belas árvores, que renovavam as folhas a cada estação, a natureza não poupou o dono do bosque das agruras de envelhecer.
A cada inverno ele foi se sentindo mais fraco e doente, e já não percorria as trilhas entre as árvores. Também não conseguia se deitar, como antes, sobre as folhas no chão, nos dias de Outono. E quando chegava a primavera, já não tinha forças para chegar ao outro lado do bosque, para ver os ninhos dos pássaros ou as flores daquele ano.
Acostumou-se então a ficar à sombra de um grande carvalho, bem próximo ao riacho, de onde podia observar a entrada do bosque. Não que esperasse alguma visita, mas por sentir necessidade de estar entre todas aquelas árvores.
Tinha arrastado uma velha cadeira de braços largos, e nela se sentava por horas, com os pés tocando a terra fria. Ao seu lado, sobre uma pedra, deixava sempre o livro predileto, já gasto de tantas releituras.
Foi então, muito tempo depois, que em um dos mais quentes verões de que se teve notícia, que algumas pessoas resolveram se aventurar pelo bosque, à procura de um lugar mais agradável que as ruas quentes da cidade.
Se espalharam pelas trilhas, falando alto e espantando pássaros e pequenos animais. 
Atravessaram o riacho e viram uma pequena casa, já gasta pelo tempo, e com aparência de abandono.
Curiosos, caminharam até um par de árvores que se destacavam das outras. Um grande e velho carvalho, que sombreava a maior parte do terreno, e ao seu lado, uma outra um pouco menor, de madeira clara e galhos curtos, cobertos de folhas e pequenas flores.
A composição, do tronco e galhos, provocava uma estranha imagem, que surpreendeu a todos. Observando melhor, compararam o que viam a figura de um homem sentado, que aproveitava a sombra do carvalho para uma leitura ao fim da tarde.

O que eles nunca souberam, foi que o dono do bosque se tornara definitivamente parte dele. Os pés tinham criado raízes profundas e fortalecido o corpo, que se tornou cerne, e aqueles braços que antes abraçavam árvores agora eram galhos com folhas e flores, que abrigavam os novos ninhos de outros pequenos passarinhos que em breve povoariam o bosque.


23 de junho de 2015

Colorindo o Mundo

Um dia, o mundo amanheceu todo cinza e triste. As árvores, as casas, as ruas e os  carros, todos ficaram da cor cinza. Parecia que o sr. Vento tinha soprado pó de cimento sobre todas as coisas.

Quando a menina acordou, olhou pela janela e ficou assustada por ver o mundo tão feio.
Então perguntou para o sol o que devia fazer, mas o sol era apenas uma luzinha amarela, muito fraquinha no céu cinzento, e respondeu­-lhe com uma voz baixinha, vinda lá de cima dizendo:" Ah, menina, você tem pintar o mundo de novo!".

Ela apressou­-se para lavar os dentinhos, o rosto e, ainda antes de comer e ir para a escola, quis deixar o mundo bonito outra vez.

Buscou dentro da gaveta da sua mesa do quarto a caixa de lápis de cor, foi à janela para ver bem como era o mundo, voltou para a mesa e desenhou tudo numa folha de papel. Depois começou a colorir o mundo.

Fez a casa da frente azul outra vez, e a sua boneca voltou a ter cabelos vermelhos como tinha antes do mundo mudar de cor. Também pintou bem branquinho, como um floco de neve, um cachorrinho vira­lata que sempre passava muito sujo, para parecer que tinha tomado banho. Assim, talvez mamãe a deixasse trazê-­lo para o quintal e brincar com ele.

Depois foi pintando as árvores, os carros de todas as cores, as flores dos jardins, uma de cada cor, o céu de azul muito bonito, e o sol de amarelo muito forte e brilhante, como era antes.

E tudo o que a menina desenhava no papel, ia mudando lá fora na rua, deixando de ser cinza e ficando colorido como no desenho. Mas logo a menina ficou muito cansada, porque o mundo era muito grande e tinha muitas coisas para pintar. Ela tinha de ir para a escola, já estava atrasada e não podia pintar mais.

E ela chorou, chorou, até aparecer uma borboleta mágica, que voava para cá e para lá, e que tinha todas as cores do mundo reunidas nas suas asas.
"Voa comigo, que eu te ajudo a pintar!", disse a borboletinha.
"Mas eu não posso voar", lamentou-­se a menina.

Foi então que a borboleta teve uma idéia: bateu as asas rapidinho, para chamar todos os animais do jardim. Logo chegaram o esquilo serelepe, a abelha zum-­zum, os passarinhos piu­-piu e as lagartixas corre-­corre. O último a chegar foi o cágado molenga, muito dorminhoco, que de vez em quando parava, encolhia as patinhas para dentro da carapaça, escondia a cabeça e tirava um cochilo.

Foi uma confusão na janela, porque todos queriam entrar no quarto, e falavam todos ao mesmo tempo. A menina, coitadinha, não sabia o que fazer.

Como ninguém escutava, ela subiu em cima do banco de pedra e começou a gritar: "atenção, atenção", e quando todos fizeram silêncio, a dona Coruja sabe-­tudo, que era a mais sábia, lá do alto da árvore, explicou como fariam para ajudar a menina a pintar o mundo. Distribuiu tarefas a todos e explicou que, se todos fizessem a sua parte, o mundo ficaria bonito outra vez.

"Você, abelha, chama todas as suas irmãs para irem pintar todas as flores, porque vocês já voam sempre, de flor em flor, vai ser muito fácil, não é ? E vocês conhecem todas as cidades e são muito rápidas. Para você lagartixa, vou pedir que pinte os muros, as paredes das casas e as ruas."

O esquilo logo se adiantou: " e eu? e eu?" . "Você, meu amiguinho, vai pintar os troncos das árvores e todos os lugares onde conseguir entrar, porque você é muito esperto!".

Sem nem precisar mandar, os passarinhos já foram pegando os lápis com os biquinhos e bateram as asinhas voando para colorir as folhas das árvores e as nuvens, lá no alto, onde só mesmo os passarinhos chegam.

A menina correu para a escola, aflita porque já estava atrasada e nesse dia havia coisas muito bonitas para aprender.

Mas os animaizinhos continuaram a colorir o mundo.

E assim foi o dia inteiro. Pintaram, pintaram, até tudo ficar colorido de novo.

E quando o sol já estava se recolhendo, amarelinho que era uma beleza de ver, a menina chegou da escola e deitou-­se no gramado verdinho, feliz por tudo estar tão bonito. Olhava o céu, as nuvens branquinhas, as flores em redor, quando uma vozinha baixinha e arrastada a chamou:

“Ei cuidado comigo!”

A menina levou um susto e procurou no meio da grama quem estava gritando. Era a joaninha pequenina, tão vermelhinha de bolinhas pretinhas, debaixo da folhinha de grama.

“Você? Desculpa, não estava te vendo, amiguinha. Suba aqui no meu braço para eu ver como são lindas as suas cores.”

A joaninha veio depressa e subiu, e fez questão de contar: “quem me pintou foi cágado molenga, com um pincel bem pequeninho”

“você ficou bonita!”

Aos poucos os animais foram chegando e sentando perto da menina e da joaninha, para descansar.
O mundo já estava todo colorido de novo.

O jardim ficou cheio de flores, com som de abelhas e passarinhos, e os esquilos pulando por todo lado.

Só quem ainda trabalhava era a borboletinha. 

Pousada numa caixa de lápis, ela sacudia as asinhas e coloria cada um deles, para que depois pudessem pintar todos os desenhos que as crianças fazem.

(conto infantil que inicia uma série de histórias para crianças)
(foto Poetas Trabajando)


28 de abril de 2015

Baião

Meu pai gostava de dançar o baião.
Assim que a música começava, sempre Luiz Gonzaga, ele
se levantava e me estendia a mão, em convite.
Embora eu já soubesse de cor todas as instruções, ouvia com alegria
enquanto dançava: "arrastando os pés, vamos lá".
Ele cantava baixinho, acompanhando o cantor, e muitas vezes eu fui
a testemunha daqueles olhos marejados...
"por farta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão"...
A saudade não tem ritmo.
É impossível acompanha-la, ou se alegrar com ela.
E hoje, sem meu par, deixei de dançar o baião.
Penso que ele está lá, cantando enquanto me vê:

"...então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração..."