7 de abril de 2017

Hoje quero te oferecer


Hoje quero mesmo é te oferecer  
não apenas um buquê de flores,
mas toda uma árvore, florida e inteira.

Para que, depois das flores, venham as frutas
e talvez outras flores,  ainda,
e mais outras folhas ganhem  novos  galhos.

E depois dos frutos, um dia chegará
em que ainda, uma sombra pródiga,
será onde construir um abrigo de paz.

E quando eu perguntar por essa árvore,
num futuro onde falemos de árvores,
você me contará das suas raízes fortes

que  mergulharam no solo,
e do tronco forte e firme
que cresceu rumo ao sol,

e nesse dia serei feliz…
 Porque, presentear com amor

é florescer…

14 de janeiro de 2017

O Velho na Estação

Eu acabara de abrir o meu novo livro, disposta a ler enquanto esperava o trem, quando o velho senhor sentou ao meu lado. Eu já o tinha visto no lado oposto da plataforma, e havíamos trocado um cumprimento. Observei que ele tinha uma dificuldade para se locomover e sentar, talvez pela idade, por isso abri um sorriso e lhe estendi a mão para ajudar.
Ele tinha um sorriso tímido, mas os olhos brilhavam. Depois de um minuto em silêncio perguntou meu nome, e o que eu fazia ali. Escutou balançando a cabeça, e começou a me contar sua história.
Tinha vindo encontrar o filho único, que partira da cidade pequena para estudar. Se passaram vinte anos, sem qualquer notícia, até receber o chamado para visita-lo.
Me contou que o convite veio através do recado de um parente que morava em uma cidade próxima, já que onde vivia não tinha sequer rede elétrica ou telefônica, e mesmo cartas não eram entregues pelos correios. Tinha viajado durante toda a noite, e deveria esperar mais algum tempo até a chegada do filho.
Perguntei-lhe se reconheceria o filho, depois de tanto tempo. Ele pensou um pouco antes de responder, como se não tivesse pensado na possibilidade:
“meu coração vai reconhecer, com a ajuda de Deus”
Ele segurava uma mala pequena, que não abandonou nem mesmo quando busquei cafés e retomamos a conversa.
Falou do seu garoto magro e sério, sempre carregando os cadernos da escola por onde ia, mostrando aos amigos o que aprendera naquele dia. Um dia chegara acompanhado da professora, e ambos explicaram a oportunidade oferecida pelo internato em uma cidade longe dali. Não custaria nada, mas ficariam muito tempo sem se encontrar.
O tempo foi muito maior do que ele imaginava. Depois da escola veio um trabalho ainda mais longe do lugar, e algum tempo depois deixou de receber notícias. O filho não soube da doença e morte da mãe, e nem mesmo do ferimento que o pai sofreu em ambas as pernas enquanto trabalhava na roça.
O velho tinha medo dos trens, mas se arriscara a vir. “Quero ver meu filho antes de morrer...”
Nossa conversa foi interrompida por um garoto, vindo não sei de onde, que ao tocar o braço do senhor, perguntou: “Vovô?”
É impossível descrever a emoção que vi em seus olhos naquele momento. O tempo pareceu se dissolver enquanto pai, filho e neto se abraçavam, e as palavras não eram necessárias.

Foram caminhando da mesma forma, juntos e silenciosos, mas eu pude ouvir, de longe, os corações repletos de alegria. 

22 de novembro de 2016

Um Natal para George

Era o último mês de aulas para George.
Ele tinha acumulado vitórias naquele ano, ganhando medalhas e elogios dos professores, por ser o mais esforçado e aplicado da sala de aula. Mesmo tendo assegurado sua aprovação, mantinha-se com o mesmo ritmo de estudo, e interesse pelos mais diversos assuntos.
Mas não era fácil para ele. Seus pais eram implacáveis com relação às obrigações do garoto, limitando, inclusive, seus momentos de diversão e convivência com os poucos amigos que tinha. Com horários rígidos, e sob constante observação de babás e monitores, tinha se tornado um menino calado, tímido, e muito solitário. Via os pais durante os jantares de toda noite, em que as conversas pareciam mais relatórios sobre o que tinha feito, e comentários sobre o quanto esperavam dele.
Uma vez por ano, em seu aniversário, recebia a visita daqueles avós que chegavam cheios de alegria, biscoitos e abraços. George sabia que eles moravam longe, e faziam um esforço enorme para nunca faltar àquela essa visita anual, promessa que fizeram quando ele era ainda pequeno demais para entender. Neste ano, eles ficaram poucas horas e partiram com lágrimas nos olhos, depois que ele se agarrara à avó pedindo que ela ficasse e contasse mais uma daquelas histórias que só ela sabia.
George adorava as histórias contadas. Sentava ao lado da avó no sofá, deixando que ela o envolvesse com um dos braços, e enquanto observava as figuras no livro que ela abria no colo, ouvia a voz suave e melodiosa falar de aventuras e heróis mágicos, em mundos que só quem acreditava conhecia. Naqueles momentos, o avô se sentava na outra poltrona acompanhando tudo, rindo com ele nas cenas engraçadas, e arregalando os olhos ou dando uma piscada quando as batalhas nas histórias eram vencidas. Ao fim da história, o livro voltava para a bolsa da avó, mas o assunto era revivido por algum tempo, nas perguntas e explicações que se sucediam entre os três.
Foi então que na escola, chegando ao final do ano, foi apresentado um último tema: o Natal.
A professora explicou os festejos e falou do Menino Jesus, que nascera trazendo esperança ao mundo. Com os ouvidos e olhos atentos, George escutou uma história que ele não conhecia, sobre uma fuga guiada por uma estrela mágica, e um nascimento em uma manjedoura onde os pais humildes passavam a noite. Soube que todos os anos, no aniversário de Jesus, as pessoas comemoravam exaltando bons sentimentos e se mantendo unidas em pedidos de paz e harmonia. Ao final dos trabalhos, todas as crianças ajudaram na decoração da escola, e fizeram um lanche juntos, aprendendo sobre os valores da convivência entre todos. Para alegria geral, cada criança recebeu um livro de presente, onde lindas figuras mostravam a Santa Família e um presépio iluminado por uma enorme estrela.
George ficou especialmente impressionado pela história de Natal.  Passou dias pesquisando sobre o assunto, e querendo saber dos colegas se já haviam participado de algum daqueles “aniversários” de Jesus. Apesar de tão comentado na escola, na sua casa o assunto não foi mencionado. Seus pais eram indiferentes ao sentido da data, embora sempre deixassem um presente no seu quarto, a cada ano. Por essa razão, ele guardara o livro no quarto, imaginando como seria bom mostrá-lo aos avós.
Mas a cada dia, criança que era, foi dominado pela emoção e ansiedade pela data. Um dia antes da Noite de Natal, não conseguindo esperar mais, e com uma habilidade precoce, traçou um plano para mostrar o livro aos avós: aproveitou a saída dos pais e chamou um taxi para levá-lo ao endereço que encontrara na agenda perto do telefone.
Não teve medo, sentia-se seguro usando seu grande casaco de frio e levando o livro de Natal debaixo do braço.
George nunca tinha visitado a casa dos avós, mas ao tocar a campainha daquela pequena casa cercada de jardins, foi tomado por uma grande alegria. Ouviu com prazer o andar arrastado do avô se aproximando, e o grito de surpresa ao abrir a porta. A avó chegou logo atrás, já com os braços abertos para um abraço carinhoso.
A casa era muito simples, bem diferente daquela em que vivia, mas ele percorreu cada cômodo com curiosidade. Gostou das cortinas feitas pela avó, dos livros do avô sobre a mesinha de canto, do tapete aos pés de um velho sofá com almofadas coloridas e de um cheiro irresistível dos biscoitos que recém tinham saído do forno.
Em um canto da sala, se encantou com uma enorme árvore de Natal. Sobre o aparador viu um pequeno presépio, com todos os personagens que reconheceu como os mesmos do livro.
O garoto percebeu que os avós já conheciam a história, e por alguns segundos teve medo que não quisessem ver o seu livro. Muito sério, explicou a razão da visita, e perguntou se podiam fazer um aniversário de Jesus naquela casa.
Bastou uma troca de olhares, para que os avós entendessem tudo. Com o garoto no colo, a avó folheou o livro mais de uma vez, comentando a história contada durante anos e anos, por todos os povos. Depois levou o neto para a cozinha, para que provasse os biscoitos enquanto falavam da festa que fariam.
George se divertia fazendo perguntas o tempo todo. Não percebeu quando o avô fez a ligação telefônica para os seus pais, nem ouviu a longa conversa que se seguiu entre eles.
Mais tarde foi acomodado no quarto preparado para ele anos atrás, e até então nunca usado. Adormeceu olhando para a fotografia ao lado da cama, em que ele, recém-nascido, dormia nos braços da avó sorridente, ao lado do avô e dos pais.
No dia seguinte participou de todos os preparativos para a ceia, e aguardou ansioso a chegada dos pais. Quando todos estavam presentes, insistiu na oração e cumprimentos de todos repetindo a importância da data, conforme aprendera na escola.
Por fim, foi para o colo da avó, levando o livro da história de Natal.




15 de julho de 2016

O Banho de Mar

O menino olhou para o mar, além da extensa faixa de areia da praia.
Já não era pequeno, mas aquela imensidão lhe pareceu desafiadora e inóspita.
Esperou, impaciente, a mãe abrir um tubo de protetor solar e aplicar o creme nos seus braços, rosto e costas.
Escutou, como todas as vezes, as recomendações quanto a força das ondas, a distância de segurança, e o tempo até a volta à sombra. A ansiedade era evidente: balançou os braços, desviou os olhos para o mar a todo instante, deu pequenos passos no mesmo lugar.
E quando a mãe sorriu e acenou com a mão, ele partiu em disparada.
Mas chegar ao seu destino não foi fácil. Nos primeiros passos sentiu que a areia quente queimava cruelmente os pequenos pés, e quando tentou correr afundou os tornozelos no solo fofo e traiçoeiro. Mas era corajoso e perseverante, por isso avançou sem olhar para trás.
Depois de vencer a etapa, parou por um instante e sentiu a brisa salgada e o ar úmido. Por um momento lembrou do pai, aconselhando-o a ser sempre cuidadoso. Pisou na areia molhada e começou a rir, antecipando a vinda da próxima onda. Ela veio com uma força inesperada, derrubando-o em meio a um turbilhão de sal, espuma e areia. Quando pareceu se afogar, levantou-se de pronto, e encarou a próxima. Apesar de resistir a princípio, foi novamente derrubado e jogado com força.
Daquela vez voltou à segurança da areia, fora da água, sentindo o joelho cortado por uma concha e o sal irritando os olhos e a garganta. Mesmo assim não desistiu, novamente avançou para água e se jogou na onda que se formava.
Mergulhou por alguns segundos e reapareceu um pouco adiante. Olhou ao redor, conferiu que tinha conseguido superar a primeira, e mergulhou novamente. Acenou para a mãe e mostrou, de longe, toda sua habilidade. Depois fez vários outros mergulhos, brincou com as ondas, e correu pela linha da água até se sentir cansado e faminto.
Voltou para perto da mãe falando sem parar e descrevendo as brincadeiras.
“eu adoro a praia, mãe, podemos voltar amanhã?”
A mãe o envolveu com a tolha, tirando o cabelo molhado daqueles olhos grandes e inteligentes. Sabia que ele não entenderia todos os seus sobressaltos, desde o momento em que ela o vira se arriscar pela areia quente e mergulhar no mar. Tinha assistido, fingindo estar lendo, ele se jogar nas ondas e comemorar cada vez que ficava de pé.
Algumas vezes tinha corrido assustada pela areia, contando mentalmente os segundos em seus mergulhos, temendo que ele se afogasse. Ao vê-lo em segurança, voltava ao seu lugar.
Sabia que ele tinha criado aventuras, se fazendo de mergulhador, herói e poderoso em lutas no mar bravio e ameaçador.
Mas, acima de tudo, tinha superado um medo inicial e tentara várias vezes até conseguir.
Voltara com mais segurança em si mesmo, e naquele momento esperava uma resposta.
“claro, filho, voltaremos amanhã !”

8 de julho de 2016

Fim do Inverno

Naquele dia, lágrimas de saudade brotaram dos meus olhos.
Primeiro tímidas, silenciosas.
Depois em ondas, incontroláveis e abundantes.
Deixei que rolassem sem barreiras,
e me tornei chuva salgada de dor.
Me joguei em suas janelas com força,
e escorri pelas vidraças que te protegiam.
Te vi imerso em luz, cercado da alegria não pude te dar.
Fui testemunha líquida da sua vida tão longe de mim,
em outros abraços e beijos,
alheio à minha constante saudade.
Então, esgotada, escorri pelo seu jardim
e penetrei no solo para alimentar as raízes de suas flores.
Deixei ali uma promessa de primavera,
como um presente para você,
criado das últimas lágrimas de meu inverno.


4 de junho de 2016

A Colecionadora de Pedras

Ela colecionava pedras.
Começou a juntá-las ainda na infância, quando se sentava na calçada em frente da casa, para brincar com as amigas um jogo alegre, em que as pedras eram lançadas para o alto e acolhidas nas mãos. Para o jogo, eram necessárias cinco pedras, tamanho mediano, e que se acomodavam nas pequenas mãos, apesar da rapidez dos gestos. Ela sempre tinha as melhores pedras, escolhidas entre as muitas que encontrava.
Com o passar dos anos habituara-se a sempre acrescentar mais uma à coleção, que guardava em nichos pelo quintal, entre vasos de flores ou em cantinhos especiais pela casa.
Dizia que não as escolhia pelas cores, ou pelos tamanhos, ou ainda pelos formatos. Eram selecionadas pelas histórias que contavam, mas que somente ela conseguia escutar.
Sendo assim, mostrava as que tinham vindo de riachos, com suas formas arredondadas e lisas. Explicava como tinham sido carregadas por correntezas, e as águas, por anos e anos, as tinham polido até serem encontradas e admiradas.
As pontiagudas protegiam e sinalizavam onde o homem não deveria pisar, dizia. Dessas tinha poucas, preferia deixá-las onde a natureza as colocara.
Gostava daquelas brilhantes, que sempre guardava onde poderiam ser vistas também durante a noite. Para isso tem tantos reflexos, explicava. As escuras, opacas, eram amontoadas perto de plantas pequeninas e frágeis, “para que possam sustentar raízes”, mostrava.
 Mas se alguém pedia que ela escolhesse uma, apenas uma entre todas, seus olhos buscavam uma pequena cesta de palha, onde guardava pedregulhos de todas as cores, encontrados em diferentes lugares. De lá tirava uma pedra com contornos simétricos, incrivelmente esculpidos pelas águas de um rio da redondeza. Passava os dedos pela sua superfície e a mostrava na palma da mão. Tinha o formato de um pequeno pássaro com as asas abertas, e fora encontrada na margem, sobre a areia. Depois de um minuto de reflexão, ela explicava: “não sei dizer se foi um passarinho que virou pedra ao cair no rio, ou se foi uma pedra, que com o movimento das águas e reflexo do céu, se transformou em pássaro para voar...”



12 de maio de 2016

Fotógrafo ou poeta

Eu o vi a caminhar pela praia.
Não olhava apenas para o mar, mas também para a areia,
e as nuvens estavam refletidas nos seus olhos como eram vistas no céu,
nos braços do vento.
Talvez fosse fotógrafo, ou poeta, pois registrava detalhes que outros não viam.
Seus olhos descobriam cores e nuances, e seus dedos percorriam com carinho todas as formas e tamanhos que encontrava.
Seguia contando histórias embriagadas de doce melancolia,
e sua voz pairava no ar por um momento apenas, antes de ser diluída pela brisa.
Fazia paradas, erguia os olhos para o céu, e acompanhava admirado o voo sem limites das gaivotas.
Parecia caminhar sem destino, mas no fim de cada dia voltava ao seu lugar, e
se entregava à dor de tudo ver e tudo sentir, deixando que lágrimas caíssem de seus olhos exaustos.
Nessas horas, não reclamava dos pés feridos por longas caminhadas, mas da rapidez com que os dias chegavam ao fim.
Para que nada se apagasse, escrevia poemas, de todos os olhares que o mundo lhe dera.