31 de outubro de 2017

Vizinhança



Ele soube que teria problemas com a vizinha logo na primeira semana na nova casa.
Naquele domingo, depois de poucas horas de sono, foi acordado pela voz de um locutor de rádio que parecia estar muito longe dali:
“_ Bom dia amigos do campo, bom dia gente da cidade! Vamos levantar e tomar um cafezinho!”
Então, como fundo musical ao cumprimento, o canto estridente de um galo.
Ele colocou a cabeça sob o travesseiro, na tentativa de voltar a dormir. Foi inútil. Depois de alguns segundos, com o volume ainda mais alto, uma música que ele desconhecia o despertou definitivamente.
Levantou-se, abriu parte da cortina, e espiou a casa vizinha ao lado. Através da janela também aberta viu que uma senhora, cabelos brancos e gestos alegres, circulava pela cozinha. Cantarolava junto com a música no rádio e, ao se virar, seus olhos se encontraram.
Ela abriu um sorriso bondoso, e acenou para ele.
“_ olá vizinho! Lindo dia, não acha?”
Não respondeu. Fechou a cortina com rapidez, resolvido a ignorar a pessoa. Estava visivelmente aborrecido. Mas ao longo daquele dia foi observando sua vizinha pelas janelas e acompanhando a sua rotina. Era algo que não conseguia evitar, por mais que estivesse irritado com o barulho que ela fazia, e com o cachorro que latia freneticamente, cada vez que o via espiando a casa.
Naquela manhã de domingo ela parecia ocupada, entre panelas e portas do armário, que abria e fechava a todo instante. Viu quando preparou a mesa para o almoço e foi para a entrada da casa. Ali ficou por muito tempo, afagando o cão e com olhos fixos no portão, como se esperasse alguém.
Ele foi testemunha da sua decepção, visível no rosto triste, quando depois guardou os pratos postos, dobrou o forro florido da mesa e o guardou na gaveta. O rádio continuava em alto volume, mas ela já não acompanhava as canções, e logo o desligou.
No fim da tarde percebeu quando ela, arrumada e penteada, pegou uma pequena bolsa e saiu de casa. O cãozinho ficou no portão, obediente à ordem de sua dona.
Algum tempo depois ouviu o portão sendo aberto. Chegou à janela a tempo de ver o pequeno terço lhe caindo das mãos, ao tentar abrir a porta de entrada. Foi à missa, pensou. Ao acender as luzes ela o viu à janela, mas desta vez não fez qualquer gesto, e desviou o olhar.
Ele acabou se acostumando a levantar muito cedo todos os dias, despertado pelos ruídos na cozinha vizinha, e o cheiro do café que atravessava as janelas. A senhora era pontual, e antes mesmo do sol nascer era possível ver as luzes acesas e janelas abertas na pequena casa.
Quando ele voltava, ao final do dia, sempre a via alimentar o cachorro e apagar as luzes. Depois tudo silenciava, e só então ele se deitava para dormir.
Aos amigos, ele contava das noites curtas, da senhora inquieta e do rádio que o incomodava. Reclamava da vizinha, e dizia querer se mudar o quanto antes.
Mas para si, embora não admitisse, sentia simpatia pela senhora solitária. Assistiu angustiado a todos os domingos de espera por convidados que não chegaram, e esperava paciente as chegadas após as missas semanais. Achava divertido ouvi-la cantar sozinha, e até já reconhecia algumas músicas.
Algumas vezes, quando sabia que ela não estava, ia até o portão para afagar o cãozinho e admirar o jardim bem cuidado, com a pequena calçada de pedras. Depois voltava para casa e se perdia em lembranças da infância e de sua própria família, agora distante.
Assim se passaram várias semanas. Ele a observando à distância sem, no entanto, tentar um contato. Ela quieta e metódica, mas consciente do vizinho que estava sempre à janela.
Determinado dia, ao chegar do trabalho, ele viu a casa toda fechada. O cachorro também não estava por perto, e não notou qualquer movimento. Foi assim durante vários dias, e ele passou a sentir a ausência da vizinha.
Acordava no horário habitual e ficava no escuro à espera da música, do latido ou do ruído das panelas, mas nada se ouvia. Sentiu falta dos aromas de café e biscoitos. Vigiava as janelas e portão, mas nada mudava.
Foi tomado por uma preocupação crescente. Se lembrou que sequer sabia o nome da senhora, ou de qualquer pessoa que pudesse lhe informar. Começou a compará-la com a mãe, a avó, as tias que não via desde que se mudara do interior.
Passou a dormir mal, acordava ao menor ruído na rua e se levantava várias vezes durante a noite, para olhar pela janela. Passava os dias irritado e cansado, ansioso para voltar para casa.
Só então percebeu como a simples presença dela, na casa ao lado, lhe trazia a sensação de pertencer a algum lugar, de proximidade com alguém, mesmo com os limites que ainda tinham. A falta dela provoca uma sensação de abandono como nunca sentira.
Então, certa manhã de domingo, ainda sonolento, ouviu o latido. Pulou da cama em um salto e abriu as janelas. A senhora tinha voltado!
Podia vê-la andando pela cozinha, abrindo e fechando gavetas como sempre fazia. Sentiu uma grande alegria, e um alívio por perceber que ela parecia bem e animada.
Ficou por ali, indo e voltando à janela, até que ela o viu. Sorriram um para o outro. Quando ela lhe acenou alegremente, ele a cumprimentou de volta.
“Saudades de você!” – ela falou
“Senti sua falta!” – ele respondeu, já resolvido a ir até a casa vizinha.
Feliz se apressou no banho, se vestiu e correu até o portão da vizinha. Sem pensar muito bateu na porta. Escutou o arrastar de sandálias, e a porta se abriu. Ela sorria, como se soubesse que ele viria, e lhe ofereceu ambas as mãos, com carinho.
“_ Bom dia! Acabei de preparar um cafezinho, venha...”
Ela arrumou as xícaras enquanto ele tirava os biscoitos do forno, como se fosse um hábito entre eles.
Antes de começarem a refeição ele atravessou a cozinha e ligou o rádio, pois já estava na hora do programa que ela gostava. Ele imitou o canto do galo para faze-la rir, e se deliciou ao vê-la cantar algumas canções.
Ficou por ali até o final da tarde, depois a acompanhou à missa e a trouxe de volta.
Foi assim por muitos outros domingos, e essa é a história que ele conta até hoje, quando se lembra de sua querida vizinha.

18 de outubro de 2017

Encontrei o Poeta


Ontem, caminhando pela praia, encontrei o Poeta.
Ele vinha devagar, deixando que vento agitasse seus cabelos e a areia brincasse com seus pés descalços.
Não sorriu, mas aceitou minha mão e seguimos juntos, dedos entrelaçados, caminhando lado a lado, dividindo aquele fim de tarde de céu rubro e brisa fresca.
Meu coração batia acelerado, pressentindo toda a agitação interior que ele trazia consigo.
Quando as estrelas chegaram, deitamo-nos na areia úmida para admirá-las. Acima do som do mar, ouvi a sua voz:
_ Já não consigo escrever sobre as estrelas, nem decifrá-las, por isso não consigo acrescentar nada às noites escuras e solitárias. Passo os dias à espera delas, mas quando a noite chega apenas a angústia toma o meu coração. São tantas, e tão diferentes entre si, que minha escrita já não consegue dar-lhes voz.
_ Então vamos ficar aqui – respondi – sob esse céu, saciados apenas com a visão que elas oferecem.
Ali, no silencio, senti que as ondas chegavam, tocando de leve nossos pés. Seu riso fraco chegou aos meus ouvidos.
_ Quando eu era criança- disse -  fitava o céu à espera que uma estrela cadente cruzasse e realizasse meus pedidos. Fiz tantos, e grande parte realmente se concretizou.
_ Acredita então nas estrelas, Poeta?
Ele não respondeu de imediato, e quando falou tinha os olhos brilhantes e vidrados.
_Acredito nas estrelas e nos sonhos que elas guardam. Na esperança que os corações têm de atingi-las, e também na infinita distância de onde me observam.
Um tremor percorreu sua mão. Apertei mais forte seus dedos, lembrando-lhe que estávamos juntos, e eu sempre o apoiaria. O Poeta nunca me pareceu tão frágil, por isso tentei encontrar as palavras certas para aquela conversa.
_E por que precisa tanto delas?
_Para descrever a luz quando o mar se aproxima, e o reflexo que faz brilhar a areia da praia. Sem elas não se vê o arrepiar na pele, provocado pela brisa, ou o amor refletido no olhar do amante que espera. Sem elas meus versos ficam presos à terra, sem sonhos nem voos.
Virei-me para fitá-lo, e percebi as lágrimas que corriam pelo rosto tenso. Me ocorreu que elas também vinham em ondas, como aquele mar.
Senti um frio percorrer minha pele até à garganta, impedindo minha voz. Me faltaram palavras perante aquela dor.
Alí perto soaram acordes de um violão, e minutos depois uma voz iniciou uma canção. Era uma balada de amor, vinda de uma das casas ao longo da praia, e por alguns momentos ficamos ambos a ouvi-la, quietos e pensativos.
Ao final, ele voltou a falar.
_ Até mesmo a música precisa das mensagens das estrelas, percebe? Sem a poesia os corações padecem e se tornam infecundos...
Era possível perceber as aflições do espírito que faziam com que ele respirasse forte, como um gemido surdo.
Foi então que nossos dedos se soltaram, e o Poeta se levantou.
 Não disse adeus, apenas me fitou com a ternura com que os poetas trazem nos olhos, e partiu sem olhar para trás.
Vi seu vulto afastar-se e lamentei a solidão que agora nós dois sentíamos, mas que não podíamos evitar. Ele tinha uma angústia dolorosa, difícil de descrever e, incapaz de suportá-la, perdoei sua partida.
Ao vê-lo já longe, pensei no preço que pagamos por não sermos apenas um, mas sim todos os que somos capazes de viver e interpretar. Uma eterna luta que atormenta aqueles que leem as estrelas ou escutam as ondas do mar.
As suas palavras marcaram meu coração com a mesma força, e da mesma forma com que a poesia sempre costuma fazer, em noites como aquela.


21 de agosto de 2017

A doadora de palavras

Ela era conhecida por sempre falar as palavras certas às pessoas.

Sabia quais serviam para um afago, um consolo, um pensamento reanimador onde havia inercia, ou um estimulo onde se instalara a desistência. Para aqueles que se perdiam em conflitos internos, escolhia palavras de fé e amparo.

Conta-se que ela tinha aprendido a ler e escrever sozinha, para grande surpresa da família.
Desde muito nova se encantara com as palavras, mesmo com aquelas que ainda não sabia o significado. Sempre que aprendia alguma, cantarolava baixinho, repetindo para si mesma, testando a sonoridade das letras, como se degustasse um doce. Depois, quando aprendeu a escrever, habituou-se a anotá-las em um pequeno caderno que levava sempre consigo, e mostrava a quem encontrasse.

Com o passar do tempo, à medida que crescia e ia aumentando seu repertório, passou a ver uma função especial nas palavras: a de trazer, no momento certo, as respostas ao espírito de cada pessoa. Sentiu que para isso ela precisava conhecer muitas, pois cada pessoa tinha sua própria história, e carregava medos, angústias ou alegrias.

Já adulta, era procurada por aqueles que precisavam escutar um alento, ou achar uma força que não se explicava de onde vinha. Nessas horas ela esquecia de si própria, de suas dores e dúvidas, e iluminava os corações aflitos com esperança de orações que aprendera e risos que só ela conhecia.

O mundo ficou silencioso quando ela se foi, e muitos, até hoje, se sentem desamparados por não encontrá-la quando precisam.

Toda pessoa precisa de palavras que lhe abram as cortinas e deixem entrar a luz, para trazer nova paz.



Bem humorados

Admiro pessoas bem humoradas.
Elas parecem possuir luz própria, e mesmo no dia de céu mais ameaçador conseguem demonstrar otimismo e, mais fantástico ainda, riem da tempestade. O bom humor parece vir de uma fonte inesgotável, talvez no coração de cada uma delas.
Os bem humorados não se abandonam à frustação de um dia ruim, apesar de reconhece-lo. São capazes de sorrir e repetir: “foi mal, hein?”.
Pessoas humoradas, principalmente aquelas que optaram por não fugir dos problemas, são descontraídas por natureza, diante de dificuldades brincam dos próprios tropeços e não desistem. Acreditam que sempre é melhor rir do que chorar, esquecer do que se apegar...
Sinto falta de mais pessoas bem humoradas por perto. Elas me fazem bem.
E lamento que o mundo não esteja repleto delas.
O fardo dos momentos ruins é muito pesado, quando não brincamos ao carregá-lo. 

Tenho gravado

Nunca deixo de vê-lo.
Quando fecho os olhos, sou capaz de delinear seu rosto e acompanhar seu sorriso.
Sei como seus cabelos recebem o vento, e como sua mão faz o movimento para tirá-los dos olhos.
Conheço o movimento do seu corpo ao caminhar, adivinho seu ritmo, e sei como observa bem os detalhes por onde vai.
Decorei a forma como suas mãos acompanham as interrogações do seu olhar, e as deixa cair, quando não está convencido.
Você está nos meus sonhos, nos meus dias, e em todos os meus momentos.
Sempre o vejo  na forma como meu coração gravou...

22 de maio de 2017

Entre gatos e vivências


Tenho duas gatas, Tica e Bela, a primeira mãe da segunda.

Foram separadas pouco tempo após o nascimento da Bela, e a partir de então viveram muito tempo em ambientes completamente diferentes. Enquanto a Tica envelheceu sem limites de espaço, tendo outros filhotes, se fortalecendo e conservando hábitos de caça e de defesa, Bela, sua cria, foi confinada em ambiente menor, com janelas gradeadas, em ambiente totalmente controlado.

Agora, depois de anos, voltei a reuni-las, e o caos se alojou aqui em casa. Passo o dia evitando que se matem, separando brigas e as afastando uma da outra.

Fico pensando se terá sido a minha interferência, ao separa-las, que fez com que a mãe e sua cria agora não se reconheçam mais e não possam mais viver juntas.
Não sei como se processam as emoções dos felinos, mas por um momento trago a experiência para o lado “humano”.

Será que ao sermos levados pela vida para direções inesperadas, nos transformamos a ponto de desfazer laços que julgávamos fortes?
Imagino que sim, em alguns casos.

Creio que laços emocionais são construídos e alimentados dia a dia, e quando deixamos de cultiva-los se enfraquecem e, muitas vezes, são completamente eliminados. Mesmo que algum dia retomemos a proximidade física, talvez as experiências vividas tenham sido transformadoras e definitivas, e não nos deixem retornar a um ponto anterior.

No entanto, quando compartilhamos, em algum momento, sentimentos fortes e maduros, as ligações parecem não se desfazer. De certa forma, as nossas memórias, vivências familiares e companheirismo de grandes amigos são impermeáveis ao tempo e distância, mesmo quando percebemos as sutis diferenças introduzidas por uma ou outra mudança de itinerário.

Por mais que a vida nos empurre e nos transforme, ainda somos capazes, na fração de um abraço ou em um toque das mãos, de refazer a conexão que nunca foi rompida no coração.

Pode ser que minhas gatas se habituem e passem a viver pacificamente, aceitando a presença uma da outra. A natureza tem mecanismos de adaptação surpreendentes.

Quanto a nós, ainda temos que aprender a fortalecer e aprimorar laços de amizade, solidariedade e convivência, por exemplo.


7 de abril de 2017

Hoje quero te oferecer


Hoje quero mesmo é te oferecer  
não apenas um buquê de flores,
mas toda uma árvore, florida e inteira.

Para que, depois das flores, venham as frutas
e talvez outras flores,  ainda,
e mais outras folhas ganhem  novos  galhos.

E depois dos frutos, um dia chegará
em que ainda, uma sombra pródiga,
será onde construir um abrigo de paz.

E quando eu perguntar por essa árvore,
num futuro onde falemos de árvores,
você me contará das suas raízes fortes

que  mergulharam no solo,
e do tronco forte e firme
que cresceu rumo ao sol,

e nesse dia serei feliz…
 Porque, presentear com amor

é florescer…