22 de maio de 2017

Entre gatos e vivências


Tenho duas gatas, Tica e Bela, a primeira mãe da segunda.

Foram separadas pouco tempo após o nascimento da Bela, e a partir de então viveram muito tempo em ambientes completamente diferentes. Enquanto a Tica envelheceu sem limites de espaço, tendo outros filhotes, se fortalecendo e conservando hábitos de caça e de defesa, Bela, sua cria, foi confinada em ambiente menor, com janelas gradeadas, em ambiente totalmente controlado.

Agora, depois de anos, voltei a reuni-las, e o caos se alojou aqui em casa. Passo o dia evitando que se matem, separando brigas e as afastando uma da outra.

Fico pensando se terá sido a minha interferência, ao separa-las, que fez com que a mãe e sua cria agora não se reconheçam mais e não possam mais viver juntas.
Não sei como se processam as emoções dos felinos, mas por um momento trago a experiência para o lado “humano”.

Será que ao sermos levados pela vida para direções inesperadas, nos transformamos a ponto de desfazer laços que julgávamos fortes?
Imagino que sim, em alguns casos.

Creio que laços emocionais são construídos e alimentados dia a dia, e quando deixamos de cultiva-los se enfraquecem e, muitas vezes, são completamente eliminados. Mesmo que algum dia retomemos a proximidade física, talvez as experiências vividas tenham sido transformadoras e definitivas, e não nos deixem retornar a um ponto anterior.

No entanto, quando compartilhamos, em algum momento, sentimentos fortes e maduros, as ligações parecem não se desfazer. De certa forma, as nossas memórias, vivências familiares e companheirismo de grandes amigos são impermeáveis ao tempo e distância, mesmo quando percebemos as sutis diferenças introduzidas por uma ou outra mudança de itinerário.

Por mais que a vida nos empurre e nos transforme, ainda somos capazes, na fração de um abraço ou em um toque das mãos, de refazer a conexão que nunca foi rompida no coração.

Pode ser que minhas gatas se habituem e passem a viver pacificamente, aceitando a presença uma da outra. A natureza tem mecanismos de adaptação surpreendentes.

Quanto a nós, ainda temos que aprender a fortalecer e aprimorar laços de amizade, solidariedade e convivência, por exemplo.


7 de abril de 2017

Hoje quero te oferecer


Hoje quero mesmo é te oferecer  
não apenas um buquê de flores,
mas toda uma árvore, florida e inteira.

Para que, depois das flores, venham as frutas
e talvez outras flores,  ainda,
e mais outras folhas ganhem  novos  galhos.

E depois dos frutos, um dia chegará
em que ainda, uma sombra pródiga,
será onde construir um abrigo de paz.

E quando eu perguntar por essa árvore,
num futuro onde falemos de árvores,
você me contará das suas raízes fortes

que  mergulharam no solo,
e do tronco forte e firme
que cresceu rumo ao sol,

e nesse dia serei feliz…
 Porque, presentear com amor

é florescer…

14 de janeiro de 2017

O Velho na Estação

Eu acabara de abrir o meu novo livro, disposta a ler enquanto esperava o trem, quando o velho senhor sentou ao meu lado. Eu já o tinha visto no lado oposto da plataforma, e havíamos trocado um cumprimento. Observei que ele tinha uma dificuldade para se locomover e sentar, talvez pela idade, por isso abri um sorriso e lhe estendi a mão para ajudar.
Ele tinha um sorriso tímido, mas os olhos brilhavam. Depois de um minuto em silêncio perguntou meu nome, e o que eu fazia ali. Escutou balançando a cabeça, e começou a me contar sua história.
Tinha vindo encontrar o filho único, que partira da cidade pequena para estudar. Se passaram vinte anos, sem qualquer notícia, até receber o chamado para visita-lo.
Me contou que o convite veio através do recado de um parente que morava em uma cidade próxima, já que onde vivia não tinha sequer rede elétrica ou telefônica, e mesmo cartas não eram entregues pelos correios. Tinha viajado durante toda a noite, e deveria esperar mais algum tempo até a chegada do filho.
Perguntei-lhe se reconheceria o filho, depois de tanto tempo. Ele pensou um pouco antes de responder, como se não tivesse pensado na possibilidade:
“meu coração vai reconhecer, com a ajuda de Deus”
Ele segurava uma mala pequena, que não abandonou nem mesmo quando busquei cafés e retomamos a conversa.
Falou do seu garoto magro e sério, sempre carregando os cadernos da escola por onde ia, mostrando aos amigos o que aprendera naquele dia. Um dia chegara acompanhado da professora, e ambos explicaram a oportunidade oferecida pelo internato em uma cidade longe dali. Não custaria nada, mas ficariam muito tempo sem se encontrar.
O tempo foi muito maior do que ele imaginava. Depois da escola veio um trabalho ainda mais longe do lugar, e algum tempo depois deixou de receber notícias. O filho não soube da doença e morte da mãe, e nem mesmo do ferimento que o pai sofreu em ambas as pernas enquanto trabalhava na roça.
O velho tinha medo dos trens, mas se arriscara a vir. “Quero ver meu filho antes de morrer...”
Nossa conversa foi interrompida por um garoto, vindo não sei de onde, que ao tocar o braço do senhor, perguntou: “Vovô?”
É impossível descrever a emoção que vi em seus olhos naquele momento. O tempo pareceu se dissolver enquanto pai, filho e neto se abraçavam, e as palavras não eram necessárias.

Foram caminhando da mesma forma, juntos e silenciosos, mas eu pude ouvir, de longe, os corações repletos de alegria.