21 de agosto de 2017

A doadora de palavras

Ela era conhecida por sempre falar as palavras certas às pessoas.

Sabia quais serviam para um afago, um consolo, um pensamento reanimador onde havia inercia, ou um estimulo onde se instalara a desistência. Para aqueles que se perdiam em conflitos internos, escolhia palavras de fé e amparo.

Conta-se que ela tinha aprendido a ler e escrever sozinha, para grande surpresa da família.
Desde muito nova se encantara com as palavras, mesmo com aquelas que ainda não sabia o significado. Sempre que aprendia alguma, cantarolava baixinho, repetindo para si mesma, testando a sonoridade das letras, como se degustasse um doce. Depois, quando aprendeu a escrever, habituou-se a anotá-las em um pequeno caderno que levava sempre consigo, e mostrava a quem encontrasse.

Com o passar do tempo, à medida que crescia e ia aumentando seu repertório, passou a ver uma função especial nas palavras: a de trazer, no momento certo, as respostas ao espírito de cada pessoa. Sentiu que para isso ela precisava conhecer muitas, pois cada pessoa tinha sua própria história, e carregava medos, angústias ou alegrias.

Já adulta, era procurada por aqueles que precisavam escutar um alento, ou achar uma força que não se explicava de onde vinha. Nessas horas ela esquecia de si própria, de suas dores e dúvidas, e iluminava os corações aflitos com esperança de orações que aprendera e risos que só ela conhecia.

O mundo ficou silencioso quando ela se foi, e muitos, até hoje, se sentem desamparados por não encontrá-la quando precisam.

Toda pessoa precisa de palavras que lhe abram as cortinas e deixem entrar a luz, para trazer nova paz.



Bem humorados

Admiro pessoas bem humoradas.
Elas parecem possuir luz própria, e mesmo no dia de céu mais ameaçador conseguem demonstrar otimismo e, mais fantástico ainda, riem da tempestade. O bom humor parece vir de uma fonte inesgotável, talvez no coração de cada uma delas.
Os bem humorados não se abandonam à frustação de um dia ruim, apesar de reconhece-lo. São capazes de sorrir e repetir: “foi mal, hein?”.
Pessoas humoradas, principalmente aquelas que optaram por não fugir dos problemas, são descontraídas por natureza, diante de dificuldades brincam dos próprios tropeços e não desistem. Acreditam que sempre é melhor rir do que chorar, esquecer do que se apegar...
Sinto falta de mais pessoas bem humoradas por perto. Elas me fazem bem.
E lamento que o mundo não esteja repleto delas.
O fardo dos momentos ruins é muito pesado, quando não brincamos ao carregá-lo. 

Tenho gravado

Nunca deixo de vê-lo.
Quando fecho os olhos, sou capaz de delinear seu rosto e acompanhar seu sorriso.
Sei como seus cabelos recebem o vento, e como sua mão faz o movimento para tirá-los dos olhos.
Conheço o movimento do seu corpo ao caminhar, adivinho seu ritmo, e sei como observa bem os detalhes por onde vai.
Decorei a forma como suas mãos acompanham as interrogações do seu olhar, e as deixa cair, quando não está convencido.
Você está nos meus sonhos, nos meus dias, e em todos os meus momentos.
Sempre o vejo  na forma como meu coração gravou...

22 de maio de 2017

Entre gatos e vivências


Tenho duas gatas, Tica e Bela, a primeira mãe da segunda.

Foram separadas pouco tempo após o nascimento da Bela, e a partir de então viveram muito tempo em ambientes completamente diferentes. Enquanto a Tica envelheceu sem limites de espaço, tendo outros filhotes, se fortalecendo e conservando hábitos de caça e de defesa, Bela, sua cria, foi confinada em ambiente menor, com janelas gradeadas, em ambiente totalmente controlado.

Agora, depois de anos, voltei a reuni-las, e o caos se alojou aqui em casa. Passo o dia evitando que se matem, separando brigas e as afastando uma da outra.

Fico pensando se terá sido a minha interferência, ao separa-las, que fez com que a mãe e sua cria agora não se reconheçam mais e não possam mais viver juntas.
Não sei como se processam as emoções dos felinos, mas por um momento trago a experiência para o lado “humano”.

Será que ao sermos levados pela vida para direções inesperadas, nos transformamos a ponto de desfazer laços que julgávamos fortes?
Imagino que sim, em alguns casos.

Creio que laços emocionais são construídos e alimentados dia a dia, e quando deixamos de cultiva-los se enfraquecem e, muitas vezes, são completamente eliminados. Mesmo que algum dia retomemos a proximidade física, talvez as experiências vividas tenham sido transformadoras e definitivas, e não nos deixem retornar a um ponto anterior.

No entanto, quando compartilhamos, em algum momento, sentimentos fortes e maduros, as ligações parecem não se desfazer. De certa forma, as nossas memórias, vivências familiares e companheirismo de grandes amigos são impermeáveis ao tempo e distância, mesmo quando percebemos as sutis diferenças introduzidas por uma ou outra mudança de itinerário.

Por mais que a vida nos empurre e nos transforme, ainda somos capazes, na fração de um abraço ou em um toque das mãos, de refazer a conexão que nunca foi rompida no coração.

Pode ser que minhas gatas se habituem e passem a viver pacificamente, aceitando a presença uma da outra. A natureza tem mecanismos de adaptação surpreendentes.

Quanto a nós, ainda temos que aprender a fortalecer e aprimorar laços de amizade, solidariedade e convivência, por exemplo.


7 de abril de 2017

Hoje quero te oferecer


Hoje quero mesmo é te oferecer  
não apenas um buquê de flores,
mas toda uma árvore, florida e inteira.

Para que, depois das flores, venham as frutas
e talvez outras flores,  ainda,
e mais outras folhas ganhem  novos  galhos.

E depois dos frutos, um dia chegará
em que ainda, uma sombra pródiga,
será onde construir um abrigo de paz.

E quando eu perguntar por essa árvore,
num futuro onde falemos de árvores,
você me contará das suas raízes fortes

que  mergulharam no solo,
e do tronco forte e firme
que cresceu rumo ao sol,

e nesse dia serei feliz…
 Porque, presentear com amor

é florescer…

14 de janeiro de 2017

O Velho na Estação

Eu acabara de abrir o meu novo livro, disposta a ler enquanto esperava o trem, quando o velho senhor sentou ao meu lado. Eu já o tinha visto no lado oposto da plataforma, e havíamos trocado um cumprimento. Observei que ele tinha uma dificuldade para se locomover e sentar, talvez pela idade, por isso abri um sorriso e lhe estendi a mão para ajudar.
Ele tinha um sorriso tímido, mas os olhos brilhavam. Depois de um minuto em silêncio perguntou meu nome, e o que eu fazia ali. Escutou balançando a cabeça, e começou a me contar sua história.
Tinha vindo encontrar o filho único, que partira da cidade pequena para estudar. Se passaram vinte anos, sem qualquer notícia, até receber o chamado para visita-lo.
Me contou que o convite veio através do recado de um parente que morava em uma cidade próxima, já que onde vivia não tinha sequer rede elétrica ou telefônica, e mesmo cartas não eram entregues pelos correios. Tinha viajado durante toda a noite, e deveria esperar mais algum tempo até a chegada do filho.
Perguntei-lhe se reconheceria o filho, depois de tanto tempo. Ele pensou um pouco antes de responder, como se não tivesse pensado na possibilidade:
“meu coração vai reconhecer, com a ajuda de Deus”
Ele segurava uma mala pequena, que não abandonou nem mesmo quando busquei cafés e retomamos a conversa.
Falou do seu garoto magro e sério, sempre carregando os cadernos da escola por onde ia, mostrando aos amigos o que aprendera naquele dia. Um dia chegara acompanhado da professora, e ambos explicaram a oportunidade oferecida pelo internato em uma cidade longe dali. Não custaria nada, mas ficariam muito tempo sem se encontrar.
O tempo foi muito maior do que ele imaginava. Depois da escola veio um trabalho ainda mais longe do lugar, e algum tempo depois deixou de receber notícias. O filho não soube da doença e morte da mãe, e nem mesmo do ferimento que o pai sofreu em ambas as pernas enquanto trabalhava na roça.
O velho tinha medo dos trens, mas se arriscara a vir. “Quero ver meu filho antes de morrer...”
Nossa conversa foi interrompida por um garoto, vindo não sei de onde, que ao tocar o braço do senhor, perguntou: “Vovô?”
É impossível descrever a emoção que vi em seus olhos naquele momento. O tempo pareceu se dissolver enquanto pai, filho e neto se abraçavam, e as palavras não eram necessárias.

Foram caminhando da mesma forma, juntos e silenciosos, mas eu pude ouvir, de longe, os corações repletos de alegria.